sábado, 16 de abril de 2011


O que é o conhecimento?

Elliott Sober
Tradução de Paula Mateus

1. Tipos de Conhecimento

No quotidiano falamos de conhecimento, de crenças que estão fortemente apoiadas por dados, e dizemos que elas têm justificação ou que estão bem fundamentadas. A epistemologia é a parte da filosofia que tenta entender estes conceitos. Os epistemólogos tentam avaliar a ideia, própria do senso comum, de que possuímos realmente conhecimento. Alguns filósofos tentaram apoiar com argumentos esta ideia do senso comum. Outros fizeram o contrário. Os filósofos que defendem que não temos conhecimento, ou que as nossas crenças não têm justificação racional, estão a defender uma versão de cepticismo filosófico.
Antes de discutirmos se temos ou não conhecimento, temos de tornar claro o que é o conhecimento. Podemos falar de conhecimento em três sentidos diferentes, mas apenas um nos vai interessar. Considerem-se as seguintes afirmações acerca de um sujeito, ao qual chamarei S:
  1. S sabe andar de bicicleta.
  2. S conhece o Presidente dos EUA.
  3. S sabe que a Serra da Estrela fica em Portugal.
Chamo conhecimento proposicional ao tipo de conhecimento apresentado em 3. Note-se que o objecto do verbo em 3 é uma proposição — uma coisa que é verdadeira ou falsa. Existe uma proposição — a Serra da Estrela fica em Portugal — e S sabe que essa proposição é verdadeira.
As frases 1 e 2 não têm esta estrutura. O objecto do verbo em 2 não é uma proposição, mas uma pessoa. O mesmo aconteceria se disséssemos que S conhece Lisboa. Uma frase como 2 diz que S está ou esteve na presença de uma pessoa, de um lugar ou de uma coisa. Por isso dizemos que 2 corresponde a um caso de conhecimento por contacto.
Existe alguma ligação entre estes dois tipos de conhecimento? Possivelmente, para que S conheça o Presidente dos Estados Unidos, terá de ter conhecimento proposicional acerca dele. Mas qual? Para que S conheça o Presidente terá de saber em que Estado ele nasceu? Isso não parece essencial. E o mesmo parece acontecer relativamente a todos os outros factos acerca dele: não parece haver qualquer proposição específica que seja necessário saber para se possa dizer que se conhece o Presidente. Conhecer uma pessoa implica, isso sim, ter um tipo qualquer de contacto directo com ela.
Chamemos ao tipo de conhecimento exemplificado em 1 conhecimento de aptidões. Que significa dizer que se sabe fazer alguma coisa? Penso que isto tem pouco a ver com o conhecimento proposicional. Uma pessoa pode saber andar de bicicleta aos cinco anos, e para isso não precisa de saber qualquer proposição acerca desse facto. O contrário também pode acontecer: uma pessoa pode ter muito conhecimento proposicional acerca de um assunto — de pintura, por exemplo — , e não ter qualquer conhecimento de aptidões a esse respeito.
Vamos aqui abordar apenas o conhecimento proposicional. Queremos saber o que é necessário para que um indivíduo S saiba que p, sendo p uma proposição qualquer — como a de que a Serra da Estrela fica em Portugal. Daqui em diante, quando falarmos de conhecimento, estaremos sempre a referir-nos ao conhecimento proposicional.

2. Condições Necessárias e Suficientes

Consideremos a definição de solteiro:
Para qualquer S, S é solteiro se e somente se:
  1. S é um adulto,
  2. S é homem,
  3. S não é casado.
Não digo que esta definição capta com precisão o que «solteiro» significa em português comum. Usamos apenas esta definição como um exemplo de uma proposta de definição. Uma definição é uma generalização. Diz respeito a qualquer indivíduo que queiramos considerar. Nesta definição fazemos duas afirmações: a primeira é a de que SE um indivíduo tem as características 1, 2 e 3, então é solteiro. Por outras palavras, 1, 2 e 3 são, em conjunto, suficientes para que se seja solteiro. A segunda afirmação é a de que SE um indivíduo é solteiro, então tem as três características. Por outras palavras, 1, 2 e 3 são, cada uma delas, condições necessárias para se ser solteiro.
Uma boa definição especifica as condições suficientes e necessárias para o conceito que queremos definir. Isto significa que existem dois tipos de erros que podem ocorrer numa definição: as definições podem ser demasiado abrangentes ou demasiado restritivas.

3. Dois Requisitos para o Conhecimento: Crença e Verdade

Devemos fazer notar duas ideias que fazem parte do conceito de conhecimento. Primeiro, se Ssabe que p (que uma proposição é verdadeira), então tem de acreditar que p. Segundo, se S sabe que p, então p tem de ser verdadeira. O conhecimento requer tanto a crença quanto a verdade. Comecemos pela segunda ideia. As pessoas às vezes dizem que sabem coisas que mais tarde se revelam falsas. Mas isto não é saber coisas que são falsas, é pensar que se sabem coisas que, de facto, são falsas.
O conhecimento tem um lado subjectivo e um lado objectivo. Um facto é objectivo se a sua verdade não depende de como é a mente das pessoas. É um facto objectivo que a Serra da Estrela está 2 000 metros acima do nível do mar. Um facto é subjectivo se não é objectivo. O exemplo mais óbvio de um facto subjectivo é uma descrição do que acontece na mente de alguém.
Se uma pessoa acredita ou não que a Serra da Estrela está a 2 000 metros acima do nível do mar é uma questão subjectiva, mas se a montanha tem realmente essa propriedade é uma questão objectiva. O conhecimento requer tanto um elemento subjectivo como um elemento objectivo. Para que S conheça p, p tem de ser verdadeira e o sujeito, S, tem de acreditar que p é verdadeira.

4. Terceiro Requisito: Justificação

Apontei duas condições necessárias para o conhecimento: o conhecimento requer crença e requer verdade. Mas será que isto é suficiente? Será que estas duas condições não são apenas separadamente necessárias, mas também conjuntamente suficientes? É a crença verdadeira suficiente para o conhecimento?
Pensemos num indivíduo, Clyde, que acredita na história do Dia do Porco do Campo. Clyde pensa que se o Porco do Campo vir a sua própria sombra, a Primavera virá mais tarde. Suponha-se que Clyde põe este princípio idiota em prática este ano. Ele tem informações que o fazem pensar que a Primavera virá mais tarde. Suponha-se que Clyde acaba por ter razão acerca deste facto. Se não existir nenhuma conexão lógica entre o facto de o porco do campo ter visto a sua própria sombra e o facto de a Primavera vir mais tarde, então Clayde terá uma crença verdadeira (a Primavera virá tarde), mas não terá conhecimento.
Que será então necessário, para além da crença verdadeira, para que alguém possua conhecimento? A sugestão mais natural é a de que o conhecimento requer dados de apoio, ou uma justificação racional. Note-se que ter uma justificação não é apenas pensar que se tem uma razão para acreditar em algo.
Que significa dizer que um indivíduo tem uma crença «justificada» na proposição p? Uma justificação pode ter a forma de um argumento dedutivo, de um argumento indutivo ou de um argumento abdutivo. Talvez existam outras opções além destas três. Mas, o que quer que seja que entendemos por «justificação», parece plausível dizer que as crenças que são defendidas irracionalmente não são casos de conhecimento (mesmo que elas sejam verdadeiras).

5. A Teoria CVJ

Suponhamos que o conhecimento requer estas três condições. Será que isto é suficiente? Será que estas condições não são apenas separadamente necessárias, mas também conjuntamente suficientes? Chamarei CVJ à teoria que afirma que assim é. Esta teoria diz que ter conhecimento é a mesma coisa que ter crenças verdadeiras justificadas:
(CVJ) Para que qualquer indivíduo S e para qualquer proposição p, S conhece p se e somente se
  1. S acredita em p
  2. p é verdadeira
  3. a crença de S em p está justificada
A Teoria CVJ afirma uma generalização. Diz o que é o conhecimento para qualquer pessoa e para qualquer proposição p. Por exemplo, suponhamos que S és tu e que p = «A Lua é feita de queijo verde». A teoria CVJ diz o seguinte: se sabes que a Lua é feita de queijo verde, então os enunciados 1, 2 e 3 devem ser verdadeiros. E se não sabes que a Lua é feita de queijo verde, então pelo menos um dos enunciados de 1 a 3 deve ser falso. Tal como na definição de solteiro discutida antes, a expressão «se, e somente se» diz-nos que são dadas condições necessárias e suficientes para o conceito definido.

6. Três Contra-Exemplos à Teoria CVJ

Em 1963, o filósofo Edmund Gettier publicou dois contra-exemplos para a teoria CVJ. O que é um contra-exemplo? É um exemplo que contradiz o que diz uma teoria geral. Um contra-exemplo contra uma generalização mostra que a generalização é falsa. A teoria CVJ diz que todos os casos de crença verdadeira justificada são casos de conhecimento. Gettier pensa que estes dois exemplos mostram que um indivíduo pode ter uma crença verdadeira justificada mas não ter conhecimento. Se Gettier tiver razão, então as três condições indicadas pela teoria CVJ não são suficientes.
Eis um dos exemplos de Gettier. Smith trabalha num escritório. Ele sabe que alguém será promovido em breve. O patrão, que é uma pessoa em quem se pode confiar, diz a Smith que Jones será promovido. Smith acabou de contar as moedas no bolso de Jones, encontrando aí 10 moedas. Smith tem então boas informações para acreditar na seguinte proposição:
a) Jones será promovido e Jones tem 10 moedas no bolso.
Smith deduz, então, deste enunciado o seguinte:
b) O homem que será promovido tem 10 moedas no bolso.
Suponha-se agora que Jones não receberá a promoção, embora Smith não o saiba. Em vez disso, será o próprio Smith a ser promovido. E suponha-se que Smith também tem dez moedas dentro do bolso. Smith acredita em b, e b é verdadeira. Gettier afirma também que Smith acredita justificadamente em b, dado que a deduziu de a. Apesar de a ser falsa, Smith tem excelentes razões para pensar que é verdadeira. Gettier conclui que Smith tem uma crença verdadeira justificada em b, mas que Smith não sabe que b é verdadeira.
O outro exemplo de Gettier exibe o mesmo padrão. Um sujeito deduz validamente uma proposição verdadeira a partir de uma proposição que está muito bem apoiada por informações, embora esta seja falsa, apesar de o sujeito não o saber. Quero agora descrever um tipo de contra-exemplo à teoria CVJ na qual o sujeito raciocina não dedutivamente.
O filósofo e matemático britânico Bertrand Russell (1872-1970) refere um relógio muito fiável que está numa praça. Esta manhã olhas para ele para saber que horas são. Como resultado ficas a saber que são 9.55. Tens justificações para acreditar nisso, baseado na suposição correcta de que o relógio tem sido muito fiável no passado. Mas supõe que o relógio parou há exactamente 24 horas, apesar de tu não o saberes. Tens a crença verdadeira justificada de que são 9.55, mas não sabes que esta é a hora correcta.

7. Que Têm os Contra-Exemplos em Comum?

Em todos estes casos, o sujeito tem dados para acreditar na proposição em causa que sãoaltamente credíveis, mas não infalíveis. O patrão está geralmente certo sobre quem vai ser promovido, o relógio está geralmente certo quanto às horas. Mas é claro que geralmente não ésempre. As fontes da informação que os sujeitos exploraram nestes exemplos são altamentecredíveis, mas não são perfeitamente credíveis. Todas as fontes de informação eram susceptíveis de erro, pelo menos até certo ponto.
Será que estes exemplos refutam realmente a teoria CVJ? Depende de como entendemos a ideia de justificação. Se dados altamente credíveis são suficientes para justificar uma crença, então estes contra-exemplos refutam realmente a teoria CVJ. Mas se a justificação requer dados perfeitamente infalíveis, então estes exemplos não refutam a teoria.
A minha opinião é de que os dados que justificam uma crença não precisam de ser infalíveis. Penso que podemos ter crenças racionais bem apoiadas mesmo quando não nos empenhamos em estar absolutamente certos de que o que acreditamos é verdadeiro. Assim, concluo que a crença verdadeira justificada não é suficiente para o conhecimento.
Elliott Sober
Retirado do livro Core Questions in Philosophy, de Elliott Sober (Prentice Hall, 2008)
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O que é a teoria do conhecimento?

Roderick Chisholm
A reflexão sobre a natureza do nosso conhecimento dá origem a uma série de desconcertantes problemas filosóficos, que constituem o tema da teoria do conhecimento, ou epistemologia. A maior parte desses problemas foi debatida pelos gregos antigos e, ainda hoje, a concordância é escassa sobre a maneira como devem ser resolvidos ou, no caso de tal não ser possível, abandonados. Descrevendo os temas dos sete capítulos que se seguem, poderemos dar a entender, de modo geral, a natureza desses problemas.

1

Qual é a distinção entre conhecimento e crença verdadeira? Se um homem teve um palpite acertado ("Eu diria que é o sete de ouros"), mas não sabe realmente; e outro homem sabe, mas não diz, e não precisa adivinhar; o que é que o segundo homem tem (se assim podemos dizer) que falta ao primeiro? Pode-se dizer, é claro, que o segundo tem a prova evidente e que o primeiro não a tem, ou que algo é evidente para um que não é para o outro. Mas o que é prova evidente e como decidiremos, em qualquer caso determinado, se temos ou não prova?
Essas perguntas têm suas análogas tanto na filosofia moral como na lógica. O que significa um acto estar certo e como decidiremos, em qualquer caso determinado, se um certo acto está certo ou não? O que significa uma inferência ser válida e como decidiremos, num determinado caso, se uma dada inferência é ou não válida?

2

A nossa prova para algumas coisas, ao que parece, consiste no facto de termos provas para outras coisas. "A minha prova de que ele cumprirá sua promessa é o facto de ele ter dito que cumpriria a sua promessa. E a minha prova de que ele disse que cumpriria a sua promessa é o facto de que..." Deveremos dizer de tudo aquilo para o que temos prova que a nossa prova consiste no facto de termos prova de outra coisa? Se tentarmos formular, socraticamente, a nossa justificação para qualquer afirmação particular de conhecimento ("A minha justificação para pensar que sei que A é o facto de que B" ) e se formos inexoráveis em nossa investigação ("e a minha justificação para pensar que sei que B é o facto de que C"), chegaremos, mais cedo ou mais tarde, a uma espécie de fim da linha ("mas a minha justificação para pensar que sei que N é simplesmente o facto de que N" ). Um exemplo de N poderá ser o facto de que me parece recordar que já estive aqui antes ou o facto de que alguma coisa, agora, me parece azul.
Esse tipo de interrupção pode ser descrito de duas maneiras bastante diferentes. Poderíamos dizer: "Há certas coisas (por exemplo, o facto de que me parece recordar ter aqui estado antes) que são evidentes para mim e que o são de tal forma que a minha prova de evidência para essas coisas não consiste no facto de haver certas outras coisas que são evidentes para mim". Ou poderíamos dizer, alternativamente: "Há certas coisas (por exemplo, o facto de que me parece recordar ter aqui estado antes) que não se pode dizer que sejam evidentes, em si, mas que se parecem com o que se pode considerar evidente, na medida em que funcionam como prova evidente para certas outras coisas." Essas duas formulações apenas pareceriam diferentes verbalmente. Se adoptarmos a primeira, poderemos afirmar que algumas coisas são directamente evidentes.

3

As coisas que correntemente dizemos que conhecemos não são coisas, portanto, "directamente evidentes". Mas ao justificarmos a afirmação de que conhecemos qualquer dessas coisas particulares podemos ser levados de novo, da maneira descrita, às várias coisas que são directamente evidentes. Deveríamos dizer, portanto, que o conjunto daquilo que conhecemos, em qualquer momento dado, é uma espécie de "estrutura", que tem seu "fundamento" no que acontece ser directamente evidente, nesse momento? Se dissermos isso, deveremos estar então preparados para explicar de que maneira esse fundamento serve de apoio ao resto da estrutura. Mas essa questão é difícil de responder, visto que o apoio dado pelo fundamento não seria dedutivo nem indutivo. Por outras palavras, não é o género de apoio que as premissas de um argumento dedutivo dão à sua conclusão, nem é o género de apoio que as premissas de um argumento indutivo dão à sua conclusão. Pois se tomarmos como nossas premissas o conjunto do que é directamente evidente em determinado momento, não podemos formular um bom argumento dedutivo, nem um bom argumento indutivo, em que qualquer das coisas que correntemente dizemos que conhecemos apareçam como uma conclusão. Portanto, talvez se dê o caso de, além das "regras de dedução" e das "regras de indução", existirem também certas "regras de evidência" básicas. O lógico dedutivo tenta formular o primeiro tipo de regras; o lógico indutivo, o segundo; e o epistemólogo procura formular as regras do terceiro tipo.

4

Pode-se perguntar: "O que é que sabemos? Qual é a extensão do nosso conhecimento?" Poder-se-á também perguntar: "Como decidir, em qualquer caso particular, se sabemos ou não? Quais são os critérios de conhecimento, se porventura existem?" O "problema do critério" resulta do facto de que, se não tivermos resposta para o segundo par de perguntas, não disporemos, nesse caso, aparentemente, de um procedimento razoável para encontrar resposta para o primeiro; e, se não tivermos resposta para o primeiro par de perguntas, não teremos então, aparentemente, um processo razoável de encontrar a resposta do segundo. O problema poderá ser formulado mais especificamente para diferentes matérias — por exemplo, o nosso conhecimento (se houver) de "coisas externas", "outros espíritos", "certo e errado", as "verdades da teologia". Muitos filósofos, aparentemente sem razão suficiente, abordam algumas dessas versões mais específicas do problema do critério segundo um ponto de vista, ao passo que outros as encaram de um ponto de vista muito diferente.

5

O nosso conhecimento (se houver) do que por vezes denominamos as "verdades da razão" — as verdades da lógica e da matemática e o que se expressa por "Uma superfície totalmente vermelha não é verde" — dota-nos com um exemplo particularmente instrutivo do problema de critério. Alguns filósofos pensam que qualquer teoria satisfatória do conhecimento deve ser adequada ao facto de que algumas das verdades da razão, tal como tradicionalmente são concebidas, não estão entre as coisas que conhecemos. Outros, ainda, procuram simplificar o problema afirmando que as chamadas "verdades da razão" só pertencem realmente, de algum modo, à maneira como as pessoas pensam ou à maneira como empregam a sua linguagem. Mas, quando essas sugestões se equacionam com precisão, perdem toda e qualquer plausibilidade que aparentemente tenham tido, no começo.

5

Outros problemas da teoria do conhecimento poderiam designar-se, apropriadamente, por "metafísicos". Abrangem certas questões sobre as maneiras como as coisas nos parecem. As aparências que as coisas nos apresentam quando, digamos, as percepcionamos, parecem subjetivas na medida em que dependem, para a sua existência e natureza, do estado do cérebro. Este simples facto levou os filósofos, talvez com excessiva facilidade, a estabelecerem algumas conclusões extremas. Alguns afirmaram que as aparências das coisas externas devem ser duplicações internas dessas coisas — que, quando um homem percebe um cão, uma tênue réplica do cão é produzida dentro da cabeça do homem. Outros disseram que as coisas externas devem ser bastante distintas do que correntemente aceitamos que sejam — que as rosas não podem ser vermelhas quando ninguém está a olhar para elas. Ainda outros afirmaram que as coisas físicas devem-se compor, de algum modo, de aparências; e houve também quem dissesse que «as aparências devem ser compostas, de algum modo, de coisas físicas». O problema levou até alguns filósofos a indagarem se existirão coisas físicas e outros, mais recentemente, a indagarem se existirão aparências.

6

O "problema da verdade" poderá parecer um dos mais simples da teoria do conhecimento. Se dissermos a respeito de um homem "Ele acredita que Sócrates é mortal", e depois acrescentarmos "E o que é mais, a sua crença é verdadeira", então o que acrescentamos não é, certamente, mais do que isto: Sócrates é mortal. E "Sócrates é mortal" diz-nos tanto quanto "é verdade que Sócrates é mortal". Mas que aconteceria se disséssemos, a respeito de um homem, que algumas das suas crenças são verdadeiras, sem especificarmos que crenças? Que propriedade, nesse caso, estaríamos atribuindo à sua crença?
Suponha-se que dizemos: "O que ele está a dizer agora é verdade", quando acontece que o que ele está a dizer agora é o que nós estamos agora a dizer que é falso, seja lá o que for. Nesse caso, estaremos a dizer algo que é verdadeiro ou a dizer algo que é falso?
Finalmente, qual é a relação entre as condições da verdade e os critérios de evidência? Temos boas provas, presumivelmente, para pensar que existem nove planetas. Essa prova consiste em vários outros factos que conhecemos a respeito de astronomia, mas não inclui, em si, o facto de que existem nove planetas. Pareceria logicamente possível, portanto, que um homem tivesse boas provas para uma crença que, não obstante, é uma crença falsa. Significará isso que o facto de existirem nove planetas, se porventura for um facto, é realmente algo que não pode ser evidente? Deveríamos dizer, portanto, que ninguém sabe, realmente, se existem nove planetas? Ou deveríamos dizer que, embora seja possível saber que existem nove planetas, não é possível saber que sabemos existirem nove planetas? Ou as provas de que dispomos para acreditar que existem nove planetas garantem, de algum modo, que a crença é verdadeira e garantem, portanto, que há nove planetas?
Tais questões, e problemas como esses, constituem o tema da teoria do conhecimento. Um certo número deles, como o leitor já sentirá, é simplesmente o resultado de confusão; e, uma vez exposta a confusão, os problemas desaparecem. Mas outros, como este livro pretende mostrar, são um tanto mais difíceis de tratar.
Roderick Chisholm
Retirado de Theory of Knowledge (Prentice Hall, 1977)
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René Descartes e David Hume

Faustino Vaz
Escola Secundária Manuel Laranjeira, Espinho

Empirismo e racionalismo

Imagina que enfrentaste o cepticismo e superaste o desamparo em que ele queria deixar-te. Vais pressupor que sabemos algumas coisas. Mesmo que esse conhecimento seja trivial, isso basta para os nossos propósitos. Por exemplo, sabes que "a teoria de Darwin é tratada na página 99 do manual de Biologia"; se alguém te perguntar por que razão o sabes, a tua resposta será "porque consultei o manual e vi que a teoria de Darwin era tratada na página 99". Sabes que "o mar está calmo" porque foste à praia e viste que o mar estava calmo. Nos dois casos, afirmas que tens conhecimento com base no que viste. A experiência de ver é a justificação para as tuas crenças. Daí podermos dizer que a experiência é a origem destes conhecimentos. A teoria associada à ideia de que a origem do conhecimento está na experiência é o empirismo. Na sua forma extrema, o empirismo defende que, em última instância, todo o conhecimento deriva de, ou consiste em, verdades obtidas apenas a partir da experiência (a posteriori).
Considera um exemplo diferente. Imagina que tens três gatinhos e dois cestos e que vais distribuir alguns gatinhos por um dos cestos e alguns gatinhos pelo outro. Quantas maneiras tens de o fazer? Poderás descobrir experimentando e contando todas as possibilidades. Ou poderás descobrir raciocinando da seguinte maneira: o primeiro gatinho pode ir para o cesto direito ou para o esquerdo, o que dá duas maneiras de começar; cada uma destas maneiras pode ser continuada pondo o segundo gatinho no cesto direito ou no cesto esquerdo, o que faz duas vezes duas ou quatro maneiras de realizar a tarefa; por último, o terceiro gatinho pode ir para o cesto direito ou esquerdo, o que dará um total de quatro vezes duas ou oito maneiras de distribuir os gatinhos pelos cestos. Neste caso, descobres quantas maneiras tens de distribuir os gatinhos sem recorrer a indícios empíricos; sabes a verdade previamente a qualquer indício empírico. Se tiveste dificuldade em entender este exemplo, podes simplesmente pensar num exercício de aritmética elementar como somar 85 a 23. Caso resolvas o exercício apenas pelo pensamento, dispensando o recurso a uma máquina de calcular, também neste caso sabes a verdade previamente a qualquer indício empírico. Diz-se por isso que estes conhecimentos são a priori: a sua origem está na razão. A teoria associada à ideia de que a origem do conhecimento está na razão é o racionalismo. Na sua forma extrema, o racionalismo defende que, em última instância, todo o conhecimento deriva ou depende de verdades obtidas apenas a partir da razão (a priori).
As noções de a priori e de a posteriori exprimem modalidades epistémicas. Isto quer dizer simplesmente que o a priori e o a posteriori são modos de conhecimento. Os exemplos dos gatinhos e da soma é elucidativo: podes saber certas coisas de um modo a priori ou a posteriori. Se sabes através da experiência, sabes a posteriori, se sabes pelo pensamento apenas, sabes a priori. Em si, as crenças não são a priori ou a posteriori. Mas não penses que a noção de a priori é pacífica entre os filósofos especializados na discussão de questões epistémicas. Aceitar que podemos conhecer coisas a priori é, em geral, aceitar que podemos saber coisas acerca do mundo sem olhar para ele, independentemente da experiência. Contudo, não é fácil explicar como isso é possível, e alguns filósofos rejeitam que isso seja possível.
Arrumar os filósofos mais importantes da Idade Moderna em racionalistas e empiristas poderá ser útil para fins didácticos, mas deves ter consciência desde já que na maior parte dos casos se trata de uma simplificação grosseira por não dar conta das diferenças subtis entre os filósofos em questão. Poucos foram os filósofos que exemplificaram sem sombra de dúvida a forma extrema de racionalismo ou a forma extrema de empirismo. Isto quer dizer que na maior parte dos casos há apenas uma diferença relativamente ao tipo de explicação que se tem do a priori. Dito isto, vais agora estudar Descartes, filósofo francês do século XVII, do lado do racionalismo; e do lado do empirismo, David Hume, filósofo escocês do século XVIII.
O objectivo desta lição não é apresentar toda a filosofia de Descartes e de David Hume e as objecções que enfrentam; é apenas o de mostrar que posição têm perante os seguintes problemas filosóficos: Que coisas podemos saber? E de que modo adquirimos esse conhecimento?


Pressuposto dominante

James Rachels
Há alguns anos, os membros de um grupo de investigadores liderados pelo Dr. David Rosenham, professor de psicologia e direito na Universidade de Stanford, conseguiram introduzir-se em vários hospitais psiquiátricos fazendo-se passar por doentes. Os funcionários dos hospitais ignoravam que eles eram especiais; pensavam que os investigadores eram doentes como os outros.
Os investigadores eram perfeitamente normais, seja qual for o significado do termo, mas a sua simples presença nos hospitais criou o pressuposto de que estavam mentalmente perturbados. Apesar de se comportarem com normalidade — nada fizeram para se fingir doentes — descobriram rapidamente que tudo quanto faziam era interpretado pelos médicos como sinal de seja qual for o problema mental que tinham inscrito nos formulários de admissão. Quando um deles era apanhado a tomar notas, eram inscritas notas do seguinte género nos seus relatórios: "o paciente envolve-se num comportamento de escrita". Durante uma entrevista, um "paciente" confessou que apesar de ter maior proximidade com a mãe quando era criança se ligou mais ao pai à medida que cresceu — uma mudança perfeitamente normal. Mas isto foi interpretado como prova de "relações instáveis na infância". Mesmo os seus protestos e declarações de normalidade foram voltados contra eles. Um dos verdadeiros pacientes alertou-os: "nunca digam a um médico que estão bem. Ele não vai acreditar. Isso chama-se "fuga para a saúde". Digam-lhe que continuam doentes, mas sentem-se muito melhor. Isso chama-se perspicácia".
Do pessoal dos hospitais, ninguém deu pelo logro. Os verdadeiros pacientes, no entanto, perceberam tudo. Um deles disse a um investigador, "Você não é louco. Está a investigar o hospital". E de facto estava.
Por que razão os médicos não perceberam? A experiência revelou algo sobre o poder de um pressuposto dominante: uma vez aceite uma hipótese, tudo pode ser interpretado para a apoiar. Quando a ideia de que os pacientes falsos tinham perturbações mentais foi admitida como pressuposto dominante, o seu comportamento não importava. Fizessem o que fizessem isso seria interpretado de modo a adaptar-se ao pressuposto. Mas o "sucesso" desta técnica não provou que a hipótese estivesse correcta. Era sinal, isso sim, de que algo correu mal.
A hipótese de que os pacientes falsos sofriam de perturbações mentais era defeituosa porque era insusceptível de ser testada. Se uma hipótese pretende dizer algo de factual sobre o mundo, então tem de haver condições imagináveis que possam verificá-la e outras que possam refutá-la. Caso contrário, não tem qualquer sentido. Se a hipótese for que todos os cisnes são brancos, por exemplo, podemos olhar para cisnes para ver se os há verdes, azuis ou de qualquer outra cor. Mesmo que não encontremos cisnes verdes ou azuis, sabemos como seria encontrar algum. A nossa conclusão deve basear-se nos resultados destas observações. (De facto, há cisnes pretos, pelo que a hipótese é falsa.) Suponha-se ainda que alguém afirma: "O Shaquille O'Neal não consegue entrar no meu Volkswagen". Sabemos o que isto significa, pois podemos imaginar as circunstâncias que tornariam a afirmação verdadeira e as que a tornariam falsa. Para testar a afirmação levamos o carro até ao Sr. O'Neal, convidamo-lo a entrar, e vemos o que acontece. Se for de uma maneira, a afirmação é verdadeira; se for de outra, é falsa.
Deveria ter sido possível aos médicos examinar os pacientes falsos, olhar os resultados, e afirmar: "Esperem lá, nada há de errado com estas pessoas". (Recorde-se que os pacientes falsos agiram com normalidade; nada fizeram para fingir qualquer tipo de sintomas psiquiátricos.) Mas os médicos não estavam a agir desta forma. Para eles, nada podia ser admitido contra a hipótese de que os "pacientes" estavam doentes.
James Rachels
Tradução de F. J. Azevedo Gonçalves
Retirado de Elementos de Filosofia Moral, de James Rachels (Lisboa: Gradiva, 2004)
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Não reproduza sem citar a fonte

Massachusetts Institute of Technology

Our History

In 1999, MIT Faculty considered how to use the Internet in pursuit of MIT's mission—to advance knowledge and educate students—and in 2000 proposed OCW. MIT published the first proof-of-concept site in 2002, containing 50 courses. By November 2007, MIT completed the initial publication of virtually the entire curriculum, over 1,800 courses in 33 academic disciplines. Going forward, the OCW team is updating existing courses and adding new content and services to the site.
View video of the MIT OpenCourseWare Milestone Celebration held on
November 28, 2007, marking the completion of the initial publication.

2001
OCW announced in The New York Times.
2002
50 courses published
Pilot version goes live with 50 courses.
Spanish and Portuguese translations added.
2003
500 courses published
Official launch in October 2003.
Chinese translations added.
2004
900 courses published
OCW adopts Creative Commons license.
Other institutions work with MIT to create their own OCWs.
First mirror site established in Africa.
2005
1250 courses published
OCW begins updating previously published courses.
OCW wins over a dozen major awards.
2006
1550 courses published
OCW Consortium meets in Kyoto, portal launched.
OCW Secondary Education concept developed.
Thai translations added.
2007
1800 courses published
New monthly traffic record set: over 2 million visits.
Highlights for High School launched.
2008
Audio/video content added regularly to YouTube and iTunes U.
Course images added regularly to flickr.
Persian translations added.
2009
1950 courses published
225 mirror sites around the world.
1 million visits from the MIT community.
2010
2000 courses published
Course Champions program launched.
100 million visits
Supplemental Resources section provides 30 complete educational materials