terça-feira, 13 de janeiro de 2015

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Título
Autor
Fonte
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Tam. Arquivo


1 .0 projeto de atualização de professores em conteúdos específicos: apresentaçãoMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


2 .0 tempo passa e a história ficaMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


3 .1º Congresso cooperativista do Rio Grande do SulMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


4 .1º Relatório de Gestão do Plano Presidente Amigo da CriançaFundação Abrinq[fa] Fundação Abrinq


5 .1º Seminário de supervisão pedagógica - relatórioMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


6 .1º Seminário de supervisão pedagógica - relatórioMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


7 .1º Seminário internacionalFundação Abrinq[fa] Fundação Abrinq


8 .2 anos da TV Escola: seminário internacional - 1998Ministério da Educação[me] Ministério da Educação


9 .2º Encontro de alfabetizadores de deficientes auditivos - INESMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


10 .500 anos: um novo mundo na TV, volume 1Ministério da Educação[me] Ministério da Educação


11 .500 anos: um novo mundo na TV, volume 2Ministério da Educação[me] Ministério da Educação


12 .A alimentação escolar no Brasil: política e instituiçãoMarcos Coimbra[me] Ministério da Educação


13 .A avaliação escolar como agente favorecedor da exclusão socialDalvanisa Luiz Silva de Oliveira[ea] Edição do Autor


14 .A Bidirecionalidade do Processo de Ensino e AprendizagemSecretaria de Educação Especial - SEESP[me] Ministério da Educação


15 .Abordagens em educação matemáticaCamila Nicola Boeri[ea] Edição do Autor


16 .Abrindo espaços: educação e cultura para a pazMarlova Jovchelovitch Noleto (Org.)[ue] Unesco


17 .Ação cultural e educacional da biblioteca no âmbito da escola de 1º grauAntonia Terezinha Marcantonio[me] Ministério da Educação


18 .Ação dialógicaJosé Henrique Manhães[ea] Edição do Autor


19 .A casa do povoAnônimo[me] Ministério da Educação


20 .Acesso e eficiência na escola rural: avaliação da educação rural básica no Nordeste brasileiro - relatório técnico n° 2, 1982Ministério da Educação[me] Ministério da Educação


21 .Acesso e permanência da população negra no ensino superior (Coleção educação para todos)Ministério da Educação[me] Ministério da Educação


22 .A ciência para o século XXI: uma nova visão e uma base de ação.UNESCO[ue] Unesco


23 .Ações afirmativas e combate ao racismo nas Américas. (Coleção educação para todos)Sales Augusto dos Santos (org.)[me] Ministério da Educação


24 .A colheita da Fazenda Escola FUNDAMAR: uma experiência premiada de eduacação infantil no campoFundação Abrinq[fa] Fundação Abrinq


25 .A condição atual da universidade e a reforma universitária brasileiraMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


26 .A conquista da Amazônia - reflexos na segurança nacionalMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


27 .Aconselhamento em DST HIV e AidsMinistério da Saúde[ms] Ministério da Saúde


28 .A construção de práticas educacionais para alunos com altas habilidades / Superdotação - Atividades de estimulação de alunosMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


29 .A construção de práticas educacionais para alunos com altas habilidades / Superdotação - Encorajando potenciaisMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


30 .A construção de práticas educacionais para alunos com altas habilidades / superdotação: o aluno e a famíliaMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


31 .A construção de práticas educacionais para alunos com altas habilidades / Superdotação:orientação a professoresMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


32 .A construção do conceito de número e o pré-sorobanSecretaria de Educação Especial - SEESP[me] Ministério da Educação


33 .Acordos, contratos, convêniosMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


34 .A corporeidade na escola: Brincadeiras, jogos e desenhMárcio Xavier Bonorino Figueiredo[ea] Edição do Autor


35 .A criança de 6 e 7 anos na 1ª sérieMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


36 .A criança e a mídia: imagem, educação, participaçãoCecilia Von Feilitzen (org.)[ue] Unesco


37 .Ulla Carlsson (Org.)[ue] Unesco


38 .A cultura e a universidadeMinistério da Educação[me] Ministério da Educação


39 .Adaptações Curriculares de Grande PorteSecretaria de Educação Especial - SEESP[me] Ministério da Educação


40 .Adaptações Curriculares de Pequeno PorteSecretaria de Educação Especial - SEESP[me] Ministério da Educação


41 .A dinâmica excludente do sistema elétrico paraenseMarcos Vinicius Miranda da Silva[me] Ministério da Educação


42 .Administração de materiais - ProfuncionárioMinistério da Educação[me] Ministério da Educação

43 .Administração (em nível superior)Pedro Guimarães Pinto[me] Ministério da Educação


44 .Adornos e pintura corporal KarajáMinistério da Educação


45 .A educação como bem público - perspectivas da regulação do ensino superiorLoussia Penha Musse Felix



46 .A educação como garantia da liberdade do homem social na concepção de Jean-Jacques RousseauEmerson Ricardo Esteves da Fonseca



47 .A educação e a crise brasileiraMinistério da Educação



48 .A educação em debateMinistério da Educação



49 .A educação e o município: sua nova organizaçãoJosé Eustáquio Romão



50 .A educação e os educadores do futuroEduardo Benzatti

sábado, 3 de janeiro de 2015

Solidão na Internet

   
  TEXTOS REFLEXIVOS

    Hoje em dia percebo que poucas são as pessoas que estão focadas em alguém de verdade.
    As pessoas reclamam de solidão, de falta de amor, de falta de carinho, mas esquecem que elas mesmas não tem coloborado para mudar isso. 
    Frequentemente me pergunto, se a internet, as redes sociais e aplicativos nos possibilitam conhecer alguém a cada minuto, será que é isso que nos afasta ainda mais, de realmente investir numa só pessoa, ou em um grupo; mas com dedicação, encontros reais, um café, um cinema, um lanche, nos possibilitando assim percebermos o que o outro esta sentindo de verdade naquele momento? 
      É preciso reavaliarmos as nossas atitudes, é preciso sabermos o que buscamos e se realmente queremos algo sólido, duradouro e verdadeiro, ou preferimos continuar investindo em um sentimento que não permite o outro aproximar-se de verdade de você?
      E foi pensando nisso que recebi um texto de uma grande amiga Claudia Nunes, falando com muita propriedade sobre este assunto.
      Leiam e vamos refletir...
                                                                                                       (1) Fga. Maria Paula C. Raphael

Solidão na Internet?* 

          Costuma-se dizer que, com a Internet, as relações entre as pessoas foram facilitadas e que esse espaço está servindo para encontros, às vezes, os mais íntimos e, talvez, mais verdadeiros na medida em que se tem a sensação de ser este um espaço onde tudo pode ou é possível. Dentro dessa perspectiva, as pessoas (usuários mais constantes) têm todos os seus desejos realizados porque não há, por exemplo, os impedimentos agenciados pelo olhar. Esse sentido, ao mesmo tempo em que apreende o todo ao redor desse usuário, formando seu conjunto de informações, também funciona como seletor daquilo que se deve ou não aceitar, já que está organicamente ligado à memória. Somos atraídos pelo que gostamos de olhar... Sendo assim, acredita-se, na Internet, além de não haver mais a possibilidade da solidão, não há mais a possibilidade de qualquer restrição do ser porque ser não é mais uma necessidade justamente dentro desse espaço. Solitários sim; em solidão, nunca!

A Internet, rede mundial de informação, com isso, é apresentada como um espaço de eliminação de vários dos mecanismos de defesa humanos, exatamente pela “desvisualização” corpórea (física) de seus usuários. Nela, por exemplo, timidez não tem lugar nem espaço. Nicks e logins são criados em correspondência com os desejos mais voluptuosos de representar a potência, não a “decência”. Nesse viés, a Internet é entendida (analisada) como lugar dos destemidos, dos fortes e dos extrovertidos. As ações têm um tom de heroicidade por se darem em esconderijo virtual. Será?

Esse é apenas um lado da questão! Pensando calmamente, o simples fato desse usuário estar sozinho diante de uma máquina exige um repensar dessas afirmativas, pois levanta alguns questionamentos: é uma relação com o Outro, ou essa máquina é o Outro para o Outro? E, se formos mais perversos: sendo uma relação, ela envolve também o emocional, ou só representa estratégicas técnicas de fuga? Com essas dúvidas (e muitas mais), comecei a pensar na/a solidão e em como esse conceito tem se modificado quando intermediado pela tecnologia, principalmente pela Internet.

O homem contemporâneo se reflete dentro da realidade exterior pela procura de realidades alternativas menos complexas como o mundo virtual, e a Internet vem de encontro justamente a essa procura. Criada como estratégia de guerra, sua disseminação e aceitação, em milhares de lares, provocou a modificação tanto das formas de entretenimento quanto dos comportamentos, pelo seu uso intensivo e por seu alcance ilimitado.

Em muitos momentos de nossas vidas, principalmente em momentos em que precisamos de concentração (estudo, criação) a necessidade de solidão é imprescindível. E essa necessidade é individual e relaciona-se com a personalidade de cada um de forma diferenciada. Cada um se sente, nesses momentos, coerente com suas escolhas e com suas formas de encarar a vida. A solidão, então, produzida para qualquer forma de introspecção (elaborar pensamentos, idéias, teorias), é força motriz de grande parte do mundo em eterno movimento de ser novo, pois é um estado de abstração que nos permite, por exemplo, mergulhar em nós mesmos, para descobrir novos mundos, novos significados para os mundos velhos, ou lugares para enterrar os mundos mortos.

Mas a contemporaneidade também trouxe a vivência da fragmentação. Atividades familiares e sociais passaram a exigir uma dedicação quase que impossível e isso agenciou, de forma radical, inquietações e descontentamentos, não mais individuais, mais coletivas. A leitura é sobre a nova dinâmica da comunidade. Percebe-se uma realidade delimitada (com limites precisos) e esta percepção “leva a uma necessidade compulsiva de conhecimento que acaba sendo mais importante que a própria vida, pois permitirá não só ajustar-se à realidade, mas desenvolver comportamentos esperados com relação ao outro.”[1] Mesmo buscando portos seguros, vivemos em insegurança, e uma insegurança também encontrada em diferentes vertentes como medos, angústias, temor ao fracasso ou incompreensão.

Dentro desse processo ambivalente em que não podemos fixar lugares cômodos para não restringirmos nosso crescimento e nossas perspectivas, é lógico que o mundo passa a ser um campo de batalha onde, segundo uma velha expressão popular, devemos “matar um leão a cada dia”. Haverá entusiasmos e desencantos em estar próximo porque vivenciamos contradições e desentendimentos. Logo todos somos / seremos compulsivos.[2] Somos compulsivos em busca da Vida.

Mas a “solidão não é um fato, é um sentimento. Enquanto sentimento, a solidão não é algo já dado. (...) É um tender para, ou vir de.”[3] E sendo assim faz parte do próprio homem, podendo ser exagerado ou não, diante das prioridades a que estiver inserido. Como um nó de relações, o homem torna a solidão medo do outro e passa a vida ou tentando afastá-lo ou tentando cristalizar a própria relação. Nesse processo, fantasias, imaginários, subjetividades são certezas a que se voltam para justificar e incentivar seu investimento voraz no mundo exterior.

Na Internet também esse processo se apresenta. Em busca ainda da felicidade, da perfeição e de um mundo melhor, e decepcionado, consciente ou inconscientemente, com suas relações mais físicas (família, amigos e amores), o usuário investe seu movimento de “encontro” com o outro num mundo virtual, pois sabe que ele é exatamente isso: UM MUNDO de possibilidades. Os contatos de pele (tato) e os encontros visuais (olhar) são dizimados.[4] Mas é preciso ser feliz, sempre!
           
Esse novo modo de buscar a felicidade sugere, primeiro, um usuário tímido diante da impossibilidade de se relacionar no real; segundo, uma transformação nos comportamentos pela insistente sistematização das formas trazidas pelo uso constante da Internet; e terceiro, uma elevação à categoria de imprescindível da sexualidade em detrimento da sensualidade:[5] “sexo vem dos outros e vai embora / Amor vem de nós e demora”.[6] Há uma perda de referenciais (e o encontro de outras mais virtualizadas e relativas). Há um desnorteamento de condutas (pela acessibilidade sem censuras mais objetivas). E, por fim, há a caotização dos sentimentos (pela sensação da liberdade de ser). O usuário aceita o fetiche como real e um real onde a desertificação baudrillariana não se constitui, pois, num mundo de tantas possibilidades, nada pode ser vazio de sentidos, nem que estes sejam trazidos pelo próprio usuário.
           
Essa perspectiva de encontrar e reencontrar o outro nesse novo mundo – o mundo virtual – reflete o homem do século XXI. Um homem sob pressão, que caminha nas incertezas, que procura relação entre inverdades[7], e que, para tal, acredita apenas no tempo real, no tempo sendo vivido, experimentado e realizado no presente. Sua solidão então está em seu desaparecimento, mas um desaparecimento que lhe permite, hoje em dia, ser ator, produtor e personagem de suas próprias histórias. E a Internet se oferece como um instrumento vigoroso e estimulante dessa vontade. Ela participa do mundo em todo o seu esplendor, mas sem o “perigo” do desmascaramento, sem o perigo da exposição. Lembrando que Pierre Levy separa o real em atual e virtual, o usuário da Internet é passivo no atual e é ativo no virtual; é solitário no atual e está em estado de solidão no virtual; é antagonista no atual e é protagonista e herói no virtual.
           
Mesmo assim “o problema da solidão não fica resolvido. Isto simplesmente o adia. Se ‘faz de conta’ que não existe. Se ‘faz de conta’ que se estabelece uma relação e, às vezes, até chega a estabelecer-se.”[8] Mas a complexidade humana novamente se apresenta: depois de muitos encontros e conversas, os usuários sentem a necessidade de se ver. Apenas adiaram-se os sentidos do tato e do olhar. Presentifica-se a necessidade de estar junto. As conversas vão dando o caráter de familiaridade às pessoas. As conversas estabelecem o incentivo necessário a um pedido até aqui adiado: “VAMOS NOS VER?” ou “QUE TAL NOS CONHECERMOS NO REAL?” Essas perguntas marcam a insatisfação humana sempre presente, mesmo que adiada por muito tempo, da ausência do corpo-a-corpo, do face-a-face. Para o conhecimento concreto nada poderá estar entre um e outro. E assim, depois de uma fase de solidão, exigimos o desaparecimento do intermediário: O COMPUTADOR.
           
Nesse momento, o usuário acredita novamente no outro, não como gostaria que fosse, mas da maneira que é. A diferença é aceita e juntos continuarão enriquecendo o mundo.

            Solidão na Internet? Coisa de momento...


(2) Profa. Claudia Nunes

      (1)  Fga. Maria Paula C. Raphael
Graduada em Fonoaudiologia  UVA 1990,*   Formação em socio-Psicomotricidade Ramain-Thiers; Especialização em Psicomotricidade como Socio-Terapeuta de Grupo e Socio-Terapeuta Psicomotora , Supervisora da equipe CESIR Rio de Janeiro; professora na formação de grupos em Sociopsicomotricidade Ramain-Thiers RJ, Membro da comissão Científica do CESIR (Centro de Estudos Simone Ramain) Docente na AVM-Faculdade Integrada Cândido Mendes em pós-graduação, nas turmas de Psicopedagogia, Psicomotricidade e Educação Especial.


      (2) Profa Ms Claudia Nunes - Graduada em Letras (Portugues/Literatura) pela UVA. Mestra em Educação pela UNIRIO.     Especialista em Tecnologia Educacional, em Neurociência Pedagógica e Psicopedagogia pela AVM-UCAM. Professora do Ensino Médio (SESI / Estado-RJ). 22 anos em sala de aula.

  

[1] www.ufsm.br/antartica/Palestra%203.htm
[2] Falamos aqui de compulsão no sentido psicanalítico, ou seja, no coletivo, em conjunto, uma tendência permanente e, em geral inconsciente, que dirige e incita a atividade dos indivíduos.
[3] www.ufsm.br/antartica/Palestra%203.htm
[4] Mesmo contatos com a WEBCAM têm tanta interferência (tela, imagens distorcidas, pouca cor e sem odor) que não conseguem estimular interesses mais instintivos. É novamente uma simulação de estímulos.
[5] Aqui queremos fazer uma ressalva: estamos entendendo sexualidade algo que constitui parte superficial da pessoa, que não sugere dependência e que se materializa na paixão, ao contrário da sensualidade que requer o envolvimento mental, sugere dependência e se materializa pelo amor.
[6] Trecho da música “Amor e Sexo” de Rita Lee inserida no disco Balacobaco. Som Livre, 2004.
[7] Inverdades entendidas como simulações.
[8] www.ufsm.br/antartica/Palestra%203.htm

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Educação e Pesquisa - Teachers at the turn of the millenium: from excess in discourses to poverty in practices

Educação e Pesquisa - Teachers at the turn of the millenium: from excess in discourses to poverty in practices



Educação e Pesquisa

Print version ISSN 1517-9702

Educ. Pesqui. vol.25 no.1 São Paulo Jan./June 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-97021999000100002 

Os Professores na Virada do Milênio : do excesso dos discursos à pobreza das práticas*

António Nóvoa
Universidade de Lisboa


Resumo
Este artigo procura analisar a “realidade discursiva” que marca grande parte dos textos sobre educação neste final de século. A chave de leitura do artigo é a lógica excesso-pobreza, aplicada ao exame da situação dos professores: do excesso da retórica política e dos mass-media à pobreza das políticas educativas; do excesso das linguagens dos especialistas internacionais à pobreza dos programas de formação de professores; do excesso do discurso científico-educacional à pobreza das práticas pedagógicas e do excesso das “vozes” dos professores à pobreza das práticas associativas docentes. Não recusando um pensamento “utópico”, o autor critica as análises “prospectivas” que revelam um “excesso de futuro” que é, ao mesmo tempo, um “défice de presente”.
Palavras-chave
Educação – Discursos – Professores – Práticas Pedagógicas.

Teachers At The Turn Of The Millenium : from excess in discourses to poverty in practices*
António Nóvoa 
Universidade de Lisboa


Abstract
This paper seeks to analyze the “discourse reality” which characterizes many of the texts about education at the end of this century. The key to this paper is the excess-poverty logic as applied to the exam of the current situation of teachers: from the excess of political and mass media rhetoric to the poverty of educational policies; from the excess of the languages of international experts to the poverty of teacher education programs; from the excess of the scientific- educational discourse to the poverty of pedagogical practices, and from the excess of the “voices” of the teachers to the poverty of their associative practices. While not refusing a “utopian” thinking the author criticizes “prospective” analyses that reveal an “excess of future” which is at the same time a “deficit of present”.
Key words
Education – Discourses – Teachers –  Pedagogical Practices.


Nos dias de hoje, há uma retórica cada vez mais abundante sobre o papel fundamental que os professores serão chamados a desempenhar na construção da “sociedade do futuro”. Um pouco por todo o lado, políticos e intelectuais juntam as suas vozes clamando pela dignificação dos professores, pela valorização da profissão docente, por uma maior autonomia profissional, por uma melhor imagem social etc.
Nos programas de acção política ou nos discursos reformadores, nos documentos dos “especialistas” da União Européia ou na literatura produzida pelos investigadores, reencontramos sempre as mesmas palavras, repetidas uma e outra vez, sobre a importância dos professores nos “desafios do futuro”. Ou porque lhes cabe formar os recursos humanos necessários ao desenvolvimento econômico, ou porque lhes compete formar as gerações do século XXI, ou porque devem preparar os jovens para a sociedade da informação e da globalização, ou por qualquer outra razão, os professores voltam a estar no centro das preocupações políticas e sociais.
Recentemente, várias organizações internacionais têm falado da nova “centralidade” dos professores, referindo-se mesmo à necessidade de “trazer outra vez os professores para o retrato”. O meu artigo procura analisar esta realidade discursiva, questionando as suas razões e contradições. O subtítulo desvenda a linha central da argumentação:

Do Excesso dos Discursos à Pobreza das Práticas
Não pretendo, obviamente, sugerir uma oposição entre “discursos” e “práticas”, como se estivéssemos perante dois mundos distintos. Bem pelo contrário. Quero demonstrar de que forma os “discursos”  induzem comportamentos e prescrevem atitudes “razoáveis” e “correctas” (e vice-versa). Mas quero mostrar, também, o modo como eles constroem uma idéia de profissão docente que, muitas vezes, não corresponde à intencionalidade declarada. A chave de leitura do artigo é o par excesso-pobreza, aplicado à análise da situação dos professores:

  • do excesso da retórica política e dos mass-media à pobreza das políticas educativas;
  • do excesso das linguagens dos especialistas internacionais à pobreza dos programas de formação de professores;
  • do excesso do discurso científico-educacional à pobreza das práticas pedagógicas;
  • do excesso das “vozes” dos professores à pobreza das práticas associativas docentes.

Do excesso da retórica política e dos mass-media à pobreza das políticas educativas
Em sociedades marcadas por crises de legitimidade política e por défice de participação, surge sempre uma dupla tendência: por um lado, para pregar o civismo, o que compensaria a falta de uma autêntica vivência democrática; por outro lado, para evitar o presente, projectando todas as expectativas na “sociedade do futuro”.
Para pregar o civismo ou para imaginar o futuro, nada melhor do que os professores. É para eles que se viram as atenções dos políticos e da opinião pública quando não encontram outras respostas para os problemas. A inflação retórica tem um efeito desresponsabilizador: o verbo substitui a acção e conforta-nos no sentimento de que estamos a tentar fazer alguma coisa.
O excesso dos discursos esconde a pobreza das práticas políticas. Neste fim de século, não se vêem surgir propostas coerentes sobre a profissão docente. Bem pelo contrário. As ambigüidades são permanentes.
Por um lado, os professores são olhados com desconfiança, acusados de serem profissionais medíocres e de terem uma formação deficiente; por outro lado, são bombardeados com uma retórica cada vez mais abundante que os considera elementos essenciais para a melhoria da qualidade do ensino e para o progresso social e cultural.
Umas vezes, as respostas procuram-se num “liberalismo” levado ao extremo: vejam-se, por exemplo, as recentes medidas decretadas pelo governo de Tony Blair, concedendo a empresas privadas a gestão dos professores substitutos nas escolas públicas inglesas. Outras vezes, assistimos ao recurso a um “autoritarismo” inusitado: vejam-se, por exemplo, certas medidas de controlo estatal ou de avaliação dos desempenhos profissionais.
No caso dos professores, o liberalismo e o autoritarismo surgem freqüentemente associados, configurando políticas desgarradas e contraditórias. Como escreve Hans Vonk, “nas sociedades actuais, os burocratas definem vários problemas sociais e educacionais numa perspectiva gerencial e não numa perspectiva de conteúdo” (1991, p. 134). O excesso dos discursos faz lembrar o final do século XIX, quando os professores eram investidos de todos os poderes (até o de ganhar guerras). Mas, nessa época, havia um consenso social em torno da missão dos professores. Hoje, não há. E o excesso dos discursos tende, apenas, a esconder a pobreza das políticas.

Do excesso das linguagens dos especialistas internacionais à pobreza dos programas de formação de professores
Nos últimos anos, os especialistas internacionais têm estado particularmente activos no aconselhamento e consultoria na área da educação. As grandes organizações (UNESCO, OCDE, União Européia etc.) parecem ter redescoberto as análises prospectivas, anunciando nos seus documentos a “sociedade educativa”, a “sociedade do conhecimento”, a “sociedade que aprende” ou a “sociedade cognitiva” do próximo século.
É nestes textos que se cunha o conceito de centralidade dos professores. No relatório da OCDE, Education Policy Analysis (1998), em apenas três páginas, utilizam-se expressões como: “trazer outra vez os professores para o retrato”; “colocar os professores no centro dos processos sociais e econômicos”; “os professores são os profissionais mais relevantes na construção da sociedade do futuro”; “os professores têm de voltar para ocentro das estratégias culturais”; “os professores estão no coração das mudanças”. Tudo isto para concluir que “a centralidade dos professores nem sempre é devidamente reconhecida no plano político”.
Um dos domínios ao qual os especialistas internacionais dedicam mais atenção é a formação inicial e continuada de professores. As medidas propostas insistem nos sistemas de “acreditação” (no caso da formação inicial) e nas lógicas de avaliação (no caso da formação continuada), arrastando uma concepção escolarizada da formação de professores. Consolida-se um “mercado da formação”, ao mesmo tempo que se vai perdendo o sentido da reflexão experiencial e da partilha de saberes profissionais.
Nos Estados Unidos, um dos grupos que mais têm influenciado as políticas educativas nas últimas décadas, o Holmes Group, escreve na abertura do seu relatório Tomorrow’s Schools of Education: “Muitas pessoas e instituições dedicam-se à formação de professores, apenas e unicamente por se tratar de um mercado rentável. A formação de professores e de educadores é um grande negócio numa nação que emprega mais de três milhões de educadores. Os dólares cintilam nos olhos daqueles que andam à procura de boas oportunidades de mercado” (1995, p.1).
Na Europa, os 4 milhões de professores constituem um “mercado” altamente cobiçado. Não espanta, por isso, que a coberto dos mais diversos argumentos (racionalização, eficácia, flexibilidade, excelência etc.) se esteja, simultaneamente, a desmantelar as escolas superiores e universitárias de formação de professores e a tentar colocar sob “gestão privada” a oferta de formação dos centros de professores. Num e noutro caso, as grandes palavras servem para ocultar interesses concretos. Ainda há pouco tempo, o ministro da Educação Nacional do governo socialista francês afirmava que era necessário “instilar no sistema de ensino o espírito de empresa e de inovação”, considerando que a educação “será o grande mercado do século XXI”.
A luta por este “mercado” tem trazido para a formação de professores um conjunto de instituições e de grupos científicos, que nunca tinham demonstrado grande interesse por este campo. Infelizmente, os benefícios desta aproximação não são muito visíveis. E o resultado é a pobreza atual da maioria dos programas de formação de professores nos países europeus.

Do excesso do discurso científico-educacional à pobreza das práticas pedagógicas
Uma das realidades mais importantes das duas últimas décadas é o desenvolvimento extraordinário do campo universitário da pedagogia e/ou das ciências da educação. Hoje em dia, há milhares de investigadores nesta área, que produzem uma quantidade impressionante de textos, documentos, pesquisas, revistas, congressos, cursos etc.
Em grande parte, esta comunidade científico-educacional alimenta-se dos professores e legitima-se por meio de uma reflexão sobre eles. Deste modo, não espanta que também os pedagogos sejam excessivos nas referências aos professores, pois esta é a melhor maneira de valorizarem o seu próprio trabalho. A conseqüência é uma recorrente “responsabilização” dos professores pelas “resistências” que opõem à razão científica tal como lhes é servida pelos investigadores.
A profissionalização dos professores está dependente da possibilidade de construir um saber pedagógico que não seja puramente instrumental. Por isso, é natural que os momentos-fortes de produção de um discurso científico em educação sejam, também, momentos-fortes de afirmação profissional dos professores. Todavia, estes momentos contêm igualmente os germes de uma desvalorização da profissão, uma vez que provocam a “deslegitimação” dos professores como produtores de saberes e investem novos grupos de especialistas que se assumem como “autoridades científicas” no campo educativo. O entendimento deste paradoxo parece-me essencial para compreender alguns dos dilemas actuais da profissão docente.
É verdade que existe, no espaço universitário, uma retórica de “inovação”, de “mudança”, de “professor reflexivo”, de “investigação-acção” etc.; mas a Universidade é uma instituição conservadora, e acaba sempre por reproduzir dicotomias como teoria/prática, conhecimento/acção etc. A ligação da Universidade ao terreno (curiosa metáfora!) leva a que os investigadores fiquem a saber o que os professores sabem, e não conduz a que os professores fiquem a saber melhor aquilo que já sabem.
A estratégia de desapossar os professores dos seus saberes serve objectivos de desenvolvimento da carreira dos universitários, mesmo que se legitime com o argumento de que serve para o desenvolvimento profissional dos professores. Como desabafava um dos mais prestigiados professores portugueses, dirigindo-se a uma platéia de universitários na área das Ciências da Educação: “Vocês domesticaram-nos! Não temos mais espaço, nem legitimidade, para lançar dinâmicas pedagógicas novas”. Não deixa de ser estranho que, numa época em que tanto se fala de “autonomia profissional” ou de “professores reflexivos”, se assista a um desaparecimento dos movimentos pedagógicos, no sentido que este termo adquiriu na primeira metade do século XX, isto é, colectivos de professores que se organizam em torno de princípios educativos ou de propostas de acção, da difusão de métodos de ensino ou da defesa de determinados ideais.
A pobreza atual das práticas pedagógicas, fechadas numa concepção curricular rígida e pautadas pelo ritmo de livros e materiais escolares concebidos por grandes empresas, é a outra face do excesso do discurso científico-educacional, tal como ele se produz nas comunidades acadêmicas e nas instituições de ensino superior.

Do excesso das “vozes” dos professores à pobreza das práticas associativas docentes
Finalmente, é útil chamar a atenção para o excesso das “vozes” dos professores. Ante as situações de dificuldade e de desvalorização social e profissional, eles deixam-se tentar pelo “sobre-dimensionamento” das suas missões, apropriando-se de alguns dos discursos anteriores e transformando-os em “vozes” próprias. Assumem, assim,  responsabilidades desmedidas, ambição que se vira freqüentemente contra eles.
É evidente que nenhum grupo profissional pode ser indiferente à sua imagem pública. E esta estratégia procura valorizar socialmente o seu papel. Mas ela é particularmente perigosa e tem constituído um factor importante do mal-estar docente. A escola e os professores não podem colmatar a ausência de outras instâncias sociais e familiares no processo de educar as gerações mais novas. Ninguém pode carregar aos ombros missões tão vastas como aquelas que são cometidas aos professores, e que eles próprios, por vezes, se atribuem.
Curiosamente, é neste tempo de tantas ambições que se tem acentuado uma maior dependência dos professores ante os poderes públicos, as entidades privadas e as instituições universitárias. E que se tem notado uma grande dificuldade de consolidar práticas de partilha profissional e de colaboração inter-pares. É verdade que há sinais de revitalização do sindicalismo docente, mas este fato não compensa a inexistência de uma colegialidade que não se esgota nos modelos sindicais tradicionais.
Ao olharmos para a história, verificamos que nunca a fragilidade associativa dos professores foi tão grande, o que não deixa de ser preocupante. Ora, sem um reforço das dimensões colectivas e colegiais no seio do professorado, não vale a pena levantar a voz (as “vozes”), pois não é por falarmos mais alto que temos mais razão ou que defendemos melhor os nossos interesses.
Tradicionalmente, os professores oscilaram entre um extremo “individualismo” na acção pedagógica e modelos sindicais típicos de “funcionários do Estado”. São, nos dias de hoje, formas obsoletas de encarar a profissão. O empobrecimento das práticas associativas tem conseqüências muito negativas para a profissão docente. É urgente, por isso, descobrir novos sentidos para a idéia de colectivo profissional. É preciso inscrever rotinas de funcionamento, modos de decisão e práticas pedagógicas que apelem à co-responsabilização e à partilha entre colegas. É fundamental encontrar espaços de debate, de planificação e de análise, que acentuem a troca e a colaboração entre os professores.

Em jeito de conclusão provisória: políticas, formação, práticas, associativismo
Seria fácil identificar outros excessos no modo de pensar os professores: por exemplo, a atitude dos pais exigindo que os professores assegurem aquilo de que eles próprios já se demitiram ou o comportamento dos empresários reclamando que os alunos desenvolvam competências que mais tarde não valorizam. Mas os excessos mencionados são suficientes para sustentar a minha recusa de um pensamento que se projecta num “excesso do futuro” como forma de justificar a “pobreza do presente”. Como já se escreveu, não é por avançarmos os relógios que o futuro chega mais cedo (Koselleck, 1979).
Aparentemente, estou em desacordo com Zaki Laïdi (1999) quando ele denuncia a “tirania da urgência”: “Exigimos do presente o que esperávamos do passado. A urgência não nega o tempo. Ela sobrecarrega-o com exigências inscritas apenas na imediatez. (...) É por isso que, na ausência de um pensamento sobre o futuro, a urgência contribui para o destruir. A sua pretensa neutralidade temporal é totalmente ilusória, porque toda a preferência implica uma escolha e toda a preferência excessiva pelo presente conduz necessariamente a opções excessivas contra o futuro” (1999, p.27). Mas este desacordo é aparente. Ambos recusamos um presente e um futuro como “fugas” ou “refúgios”.
Eu sei que a reflexão prospectiva foi, num passado não muito distante, a manifestação de um pensamento utópico, de uma vontade de mudar as coisas da educação. Mas hoje trata-se, na maior parte dos casos, de um mero jogo nominalista, como se não houvesse outra mudança para além da alteração dos nomes. São exercícios “técnicos”, esvaziados de uma idéia de futuro inscrita numa relação ao tempo histórico e social.1
Consciente deste facto, não me lançarei em mais um exercício de antecipação. Mas, tal como dizia António Vieira no século XVII, há elementos da “história do futuro” que podem ser trazidos para o debate. As quatro denúncias que organizam este artigo contêm, evidentemente, outros tantos aspectos essenciais para os professores. Permitam-me que os relembre, em jeito de conclusão.
Políticas educativas
As sociedades actuais manifestam grandes ambigüidades em relação à escola e aos professores. O século XX foi aquele em que mais se investiu afectivamente nas crianças, mas foi também aquele em que elas mais tempo passaram separadas das famílias. Adquiriu-se uma noção muito nítida da importância da educação, ao mesmo tempo que as comunidades foram abdicando da sua função educativa. Os pais que exigem à escola a defesa dos valores, da tolerância e do diálogo, reclamando mesmo a restauração da ordem e de normas de disciplina ditas de “tolerância zero”, são os mesmos pais que deixam os filhos ver filmes ou divertirem-se com jogos para computador de extrema violência.
Ao mesmo tempo, os problemas políticos tendem a ser redefinidos como problemas pedagógicos. O que não é possível fazer noutras arenas transfere-se para o campo da educação. Aqui, o discurso e a acção ficariam libertos dos constrangimentos democráticos, dando livre curso às práticas autoritárias do Estado, da sociedade civil ou do “mercado”. Hoje em dia, é raro aquele que defende o primado da autoridade como modo de organização da vida social ou política. Mas, na escola, o discurso é outro. Para muitos líderes de opinião, o princípio democrático não teria, aqui, razão de ser, importando, sim, insistir no uso da autoridade, na exigência do esforço, na promoção do mérito e na selecção dos melhores. A lógica da autoridade e da competição seriam, assim, os elementos-chave para uma educação dita “de qualidade”. As idéias de democracia e de participação estariam condenadas a ficar à porta da escola.
Os professores sabem que não é assim. E que a democracia começa no respeito pelas crianças e pelos seus percursos. E sabem que são eles que têm de defender a possibilidade destes percursos, por vezes contra as famílias ou contra as comunidades locais.  Mas, para tal, é preciso que exista um resgate social da profissão docente e a definição de políticas educativas coerentes. Os professores têm de redescobrir uma identidade colectiva, que lhes permita cumprir o seu papel na formação das crianças e dos jovens.
Os tempos de hoje são mais complexos do que os tempos passados. E mais difíceis. Mas grande parte das crenças fundadoras da profissão docente continua actual. A começar por esse sentimento de que nos compete cuidar das crianças e do seu futuro. Para que isso seja possível, é fundamental que os professores ocupem um espaço mais dinâmico (e menos defensivo) nas mudanças em curso.
Formação de Professores
É impossível imaginar alguma mudança que não passe pela formação de professores. Não estou a falar de mais um “programa de formação” a juntar a tantos outros que todos os dias são lançados. Quero dizer, sim, da necessidade de uma outra concepção, que situe o desenvolvimento pessoal e profissional dos professores, ao longo dos diferentes ciclos da sua vida. Necessitamos de construir lógicas de formação que valorizem a experiência como aluno, como aluno-mestre, como estagiário, como professor principiante, como professor titular e, até, como professor reformado.
Nos últimos anos, tem-se insistido, ora na formação inicial, ora na formação continuada. Mas, tanto num caso como no outro, há tendências claras para a “escolarização” e para a “academização” dos programas de formação de professores. Assim sendo, e apesar da retórica do “professor reflexivo”, os resultados conduzirão, inevitavelmente, a uma memorização dos professores ante os grupos científicos e as instituições universitárias. Ou, como diria Ademar Santos, para que os professores das “escolas superiores” continuem a ditar as suas leis aos professores das “escolas inferiores”.2
Pela minha parte, gostaria de perceber como é que os professores reflectiam antes de os investigadores terem decidido que eles eram “profissionais reflexivos”. E encontrar processos que valorizem a sistematização dos saberes próprios, a capacidade para transformar a experiência em conhecimento e a formalização de um saber profissional de referência. As abordagens autobiográficas (não apenas num sentido pessoal, mas geracional), as práticas de escrita pessoal e colectiva, o desenvolvimento de competências “dramáticas” e relacionais ou o estímulo a uma atitude de investigação deveriam fazer parte de uma concepção abrangente de formação de professores.
É verdade que não faltam programas em que estas dimensões estão contempladas. Mas a questão essencial não é organizar mais uns “cursos” ou atribuir mais uns “créditos de formação”. O que faz falta é integrar estas dimensões no quotidiano da profissão docente, fazendo com que elas sejam parte essencial da definição de cada um como professor/a.
Práticas Pedagógicas
A acção educativa sempre se revestiu de uma grande complexidade e de margens significativas de imprevisibilidade. Estas características são ainda mais marcadas nos dias de hoje, devido à presença na escola de crianças de todas as origens sociais e culturais, bem como à democratização do acesso às mais variadas tecnologias de informação e comunicação.
Diante deste panorama, é grande a tentação de enveredar por uma planificação rígida ou por uma “tecnologização do ensino”. Estes caminhos levam, inevitavelmente, a uma secundarização dos professores, ora obrigados a aplicarem materiais curriculares pré-preparados, ora condicionados pelos meios tecnológicos ao seu dispor. O reforço de práticas pedagógicas inovadoras, construídas pelos professores a partir de uma reflexão sobre a experiência, parece ser a única saída possível.
Um elemento essencial deste debate é a afirmação de que as zonas indeterminadas da prática se encontram no cerne do exercício profissional docente. Tal facto leva-nos a conceder uma nova atenção à idéia de deliberação. O  momento em que o professor julga e decide, a partir da análise de uma situação singular e com base nas suas convicções pessoais e nas suas discussões com os colegas, transforma-se, assim, numa dimensão central do processo identitário.
Um outro elemento, que tem sido pouco explicitado, diz respeito ao horizonte ético do trabalho docente. É uma reflexão inevitável, num tempo marcado por tantos conflitos e dilemas. Os professores não podem refugiar-se numa atitude “defensiva” e têm de estar preparados para enfrentar as interpelações dos seus alunos. A definição da consciência e da responsabilidade profissional não se esgota no acto técnico de ensinar e prolonga-se no acto formativo de educar.
A concepção de práticas pedagógicas que respondam a estas preocupações contém, actualmente, uma dimensão organizacional e, por isso, é tão importante reequacionar o papel da escola como espaço de referência da profissionalidade docente.
Associativismo Docente
O ponto anterior indica a necessidade de reinventar as práticas associativas docentes. Tem faltado ao professorado uma dimensão colectiva, não no sentido corporativo, mas na perspectiva da “colegialidade” docente. Não me refiro a dinâmicas voluntaristas de colaboração, mas sim à instauração de culturas e rotinas profissionais que integrem esta dimensão. A literatura sobre os professores tem vindo a produzir conceitos que aproximam esta idéia (partilha, cooperação, equipas de trabalho, ensino por equipas, desenvolvimento profissional, investigação-acção colaborativa, regulação coletiva das práticas, avaliação inter-pares, co-formação e tantos outros), mas é ainda longo o caminho a percorrer, no plano do pensamento científico e na acção concreta nas escolas.
A idéia de equipa pedagógica, tal como é formulada por Philippe Perrenoud (1996), aponta justamente para a necessidade de erigir sistemas de acção colectiva no seio do professorado. Na perspectiva deste autor, o trabalho em equipa não deve ser visto como uma conquista individual da parte dos professores, mas como uma faceta essencial de uma nova cultura profissional, uma cultura de cooperação ou colaborativa. É útil mencionar a importância de uma análise colectiva das práticas pedagógicas que pode sugerir momentos de partilha e de produção colegial da profissão. Num certo sentido, trata-se de inscrever a dimensão coletiva no habitusprofissional dos professores.
Guy Le Boterf, em trabalho de 1994, sublinha que “a competência do indivíduo depende da rede ou redes de conhecimento às quais pertence”. Mobilizando o termo “colégio invisível”, refere que “a competência das equipas profissionais não se reduz à soma das competências individuais que as compõem”. Nesta linha, sugere o conceito de competência colectiva, encarado numa dupla vertente: a competência coletiva de uma equipa de trabalho e os sistemas de competências organizados em rede.
A concretização destas propostas faz aparecer um actor colectivo, portador de uma memória e de representações comuns, que cria linguagens próprias, rotinas partilhadas de acção, espaços de cooperação e dinâmicas de co-formação participada. É uma mudança decisiva para a profissão docente.
É a partir deste novo entendimento das políticas educativas, da formação de professores, das práticas pedagógicas e do associativismo docente que é possível imaginar o trabalho dos professores no próximo século. Há quase trinta anos, Ivan Illich (1973) escreveu a sua Sociedade sem escolas, utopia que nos conquistou a todos, de uma ou de outra maneira. Hoje, sabemos que as nossas sociedades serão, ainda por muitos anos, sociedades com escolas. Mas sabemos também que as escolas que temos não nos servem.
A “refundação da escola” tem muitos caminhos, mas todos eles passam pelos professores. Esta profissão representou, no passado, um dos lugares onde a idéia de escola foi inventada. No presente, o seu papel é essencial para que a escola seja recriada como espaço de formação individual e de cidadania democrática. Mas, para que tal aconteça, é preciso que os professores sejam capazes de reflectirem sobre a sua própria profissão, encontrando modelos de formação e de trabalho que lhes permitam não só afirmar a importância dos aspectos pessoais e organizacionais na vida docente, mas também consolidar as dimensões colectivas da profissão.
A “paixão pelo futuro” é um bom spot publicitário. Mas, no campo educativo, ele significa, muitas vezes, um “défice de presente”. O pensamento educacional tem sido marcado pelo conformismo. Freqüentemente, a análise prospectiva não é mais do que a face criativa deste conformismo, para não dizer resignação. Como se imaginar nos dispensasse de agir. É importante pensar o futuro dos professores. Mas sem esquecer o presente e sem calar a indignação pelo estado actual das coisas. Porque, parafraseando Louis Althusser (1992), o futuro (ainda) demora muito tempo.

Referências bibliográficas
ALTHUSSER, Louis. L’avenir dure longtemps. Paris: Stock, 1992.         [ Links ]
HOLMES GROUP. Tomorrow’s Schools of Education. East Lansing, MI: The Holmes Group, 1995.         [ Links ]
ILLICH, Ivan. Sociedade sem escolas. Petrópolis: Editora Vozes, 1973.         [ Links ]
KOSELLECK, Reinhart. Le futur passé: contribution à la sémantique des temps historiques. Paris: Écoles de Hautes Études en Sciences Sociales, 1990.         [ Links ]
LAÏDI, Zaki. La tyrannie de l’urgence. Montréal: Musée de la civilisation, 1999.         [ Links ]
LE BOTERF, Guy. De la compétence: essai sur un attracteur étrange. Paris: Les Éditions d’Organisation, 1994.         [ Links ]
NÓVOA, António. Histoire et comparaison (essais sur l’éducation). Lisboa: Educa, 1998.         [ Links ]
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VONK, Hans. Some trends in the development of curriculum for the professional preparation of teachers in Europe. British Journal of Educational Studies, v.39, n.2, p.117-137, 1991.         [ Links ]


Recebido em 16 nov. 1999
Aprovado em 13 dez. 1999


Correspondência para:
Faculdade de Psicologia e
Ciências da Educação
Universidade de Lisboa
Al. Da Universidade
1600 Lisboa – Portugal

* Este artigo surge na seqüência de uma palestra proferida na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, no dia 20 de Maio de 1999. Uma versão deste texto foi publicada na revista espanhola Cuadernos de Pedagogía (nº 286, Dezembro de 1999).

Correspondence:
Faculdade de Psicologia e de
Ciências da Educação
Universidade de Lisboa
Al. Da Universidade
1600 Lisboa - Portugal

* This paper follows a lecture given at the School of Education of the University of São Paulo on May 20, 1999. A translation of this text has been published in the Spanish journal Cuadernos de Pedagogía (No. 286, December 1999).